Eu não sou cinéfila, mas tenho lá as minhas preferências, de Tarantino, Almodóvar e talvez Lars Von Trier. Mas comecei a assistir Woody Allen por boas indicações dos amigos. Dele, gostei muito de “Match Point” e “Vicky Cristina Barcelona”. No mais, acho sem sal e açúcar.
Neste final de semana, vi “O Sonho de Cassandra”.
Depois de um tempo a gente acaba desenvolvendo o hábito irritante de considerar o conjunto da obra em vez de só a obra, não é mesmo? Pois é, achei o filme chatinho, mas foi inevitável fazer comparações com outros filmes. E aí, achei interessante.
“O Sonho de Cassandra” é parecidíssimo com “Match Point”. Veja:
Os dois têm um “alpinista social” sem muitos escrúpulos.
Ambos têm uma mulher como símbolo de status social e poder (nada de romance).
De repente, surge um problema.
E o problema só pode ser resolvido com a morte de alguém.
Bom, o final do filme não é igual.
Ainda bem que “O Sonho de Cassandra” foi feito depois de “Match Point”, senão pensaria que Woody Allen teria ficado mais pessimista e cético! Ufa!
No segundo semestre de 2008, antes de a crise financeira estourar, assisti a um evento sobre a situação dos migrantes brasileiros no Japão. O evento trouxe palestrantes diversos e abordou vários aspectos, como o histórico, social, psicológico e emocional. Em um determinado momento, uma das psicólogas participantes citou um trecho que diz: “você pode aprender a falar como eles, a pensar como eles e até agir como eles. Mas nunca vai sentir como eles”. O trecho foi usado para ilustrar a situação de todo migrante dentre a população local.
Em março último, esse trecho veio com força à minha memória. Depois da faculdade, fui visitar a exposição “1961 – Informalismo e Nova Figuração Argentina”. Entre telas e esculturas, me chamou atenção o grupo de pinturas chamada “Série Federal” de Luis Felipe Noé (acima), em que ele aborda o peronismo. Telas carregadas de vermelho, algumas usando até óleos que faziam o vermelho ficar mais intenso e mais parecido com sangue. As telas naquela sala continham figuras dotadas de olhos, boca e nariz, mas não eram exatamente humanas. Eram esboços, que pareciam criaturas fantasmagóricas. Não entendi por que ele e outros artistas recorriam a tais figuras. Deve ser cultural, pensei.
O fato é que percebi naquele momento que eu era uma expectadora dos sentimentos alheios. Por mais que soubesse o que foi o peronismo na Argentina, nunca sentirei (ou nunca vou imaginar como é sentir) esse golpe como alguém que nasceu naquele país. Há sentimentos indescritíveis, indizíveis. Nenhuma palavra consegue captar um sentimento dessa extensão, profundidade (e densidade). Então, me perguntei se as artes plásticas seriam então umas das janelas mais transparentes para os sentimentos, como a música.
Em outro momento, ao ver telas de Jorge Guinle (acima), um artista carioca morto em 1998, tive a sensação (falsa ou não) de ter mais possibilidade de “diálogo” entre o sentimento exposto na tela e os meus próprios do que ao ver as de Noé. Será ilusão?
“Lembra que o sono é sagrado e alimenta de horizontes o tempo acordado de viver”
(Beto Guedes, em “Amor de Índio”)
Durante a viagem de volta no ônibus eu sonhei.
Sonhei que chegava em casa tarde da noite, ia até o quarto do meu filho e o acordava, dizendo: “filho, a mamãe passou naquela prova. Vamos comemorar? A gente pode fazer o que você quiser agora”. E ele, sonolento, esfregando as mãos nos olhos perguntaria ‘a gente pode ir na piscina?’; ‘a piscina não, porque está fechado’; ‘então no shopping’; ‘também não…’. Então eu diria ‘vamos para a praia?’; ‘Vamos!!!’; ‘então pega as suas coisas’; ‘agora????’; ‘é, agora’.
No caminho, o céu escuro, as luzes na estrada e a criança dormindo no banco de trás. No destino, uma toalha estendida na areia e os dois corpinhos enrolados no edredon, em frente ao mar. Então, eu diria ‘acorda, filho. Olha o sol nascendo’.
Adoro alguns filmes de romance em que tudo parece estar um tédio e de repente alguém especial aparece e transforma a realidade do momento. É bem o retrato de uma vida que é cheia de surpresas, ruins e boas também. Foi com esse espírito que fui assistir ao “Amantes”. E que balde de água fria! Eu bem poderia ter desconfiado que, em cartaz na Reserva Cultural, esse filme não era um romance blockbuster…
A surpresa ficou por conta de encontrar no título original “Two Lovers” uma nova perspectiva que mudou totalmente o conceito que eu tinha do filme. Ora, por que um filme contendo um triângulo amoroso tem como título “Two Lovers”? E por que o título não foi traduzido fielmente? Talvez, penso eu, por alguma artimanha dos autores que transformaram o protagonista em coadjuvante e as duas coadjuvantes em protagonistas. Genial!
Lendo um livro com a protagonista muçulmana, imaginei inconscientemente todos os personagens com a pele queimada de sol como os árabes que vemos na televisão. Por isso, levei um susto quando ela disse que o vizinho era negro. Então, lembrei que Marrocos está no norte da África e me perguntei: o povo é mais branco ou negro?
Marrocos está a poucos quilômetros da Europa e foi passagem para os árabes, quando estes invadiram a Península Ibérica, e depois para os europeus quando começaram a retomar territórios. Pertenceu a países europeus como Inglaterra, França e Espanha e só conseguiu independência em 1956. É o único país do continente a não participar da União Africana.
Enfim, é misturado.
Cito o depoimento interessante de um blogueiro. Tânger é uma cidade portuária de Marrocos:
“Tânger, na confluência de três mundos, terra-santa da espionagem internacional nos tempos da Guerra Fria, é uma cidade vira-lata: com vista para a Europa, busca no turismo e no contrabando sua fonte de subsistência. Vira as costas para a miséria da África, que mesmo assim insiste em invadir a cidade na sujeira das ruas, nos odores fortes, na sensação de que o selvagem e o proibido estão à espreita. No entanto, o espírito da cidade não está nem aqui, nem lá.” (Carteiro Sem Poeta – carteirosempoeta.wordpress.com)
Procurando informações sobre Marrocos, me deparei com essa imagem belíssima aí em cima. Sim, é uma bellydancer.
A obra é do pintor e escultor francês Jean-Léon Gérôme. Essas pinturas temáticas, ele fez durante uma temporada no Oriente Médio – segundo a Wikipédia, ele não chegou a ir ao Marrocos.
Olha só aí embaixo, a venda de mulheres escravas. Parece leilão de boi. Coitadas, em todas as pinturas que vi, elas escondiam o rosto no bracinho assim.
O lado mais visível da cultura árabe por aqui é sem dúvida a dança do ventre ou belly dance.
Há alguns anos, desejei fazer algo criativo com meu décimo terceiro e resolvi pagar dois meses de aulas de dança do ventre em uma casa de chá egípcia na zona sul de São Paulo. O objetivo era relaxar, afinal, estava de férias.
Funcionou, mas dois meses de aula é um acinte a qualquer professor e, como não poderia deixar de ser, eu acabei tendo apenas uma vaga noção sobre a dança.
Pelo menos fiquei sabendo sobre Soraia Zaied, uma bellydancer brasileira que faz sucesso no exterior. Será que, além de exportarmos jogadores de futebol e modelos, nós também estamos invandindo outra seara?
Olha como era:
Olha agora:
Veja a evolução da roupa. Repare que agora ela está de salto!
Era um Brasil com histórias de cantores de rádio e pronto para novidades. A bossa nova havia apenas começado. E os festivais na televisão traziam Elis Regina, Chico Buarque, Jair Rodrigues. Também foi um tempo de Clube da Esquina, do pessoal do iê, iê, iê de Roberto Carlos e depois dos Novos Baianos.
No mundo, as pessoas se agitavam ao som de Beatles e outras bandas, que se tornariam depois lendas do rock. Enquanto isso, no Marrocos e no Oriente Médio, outras também faziam sucesso.
Senhoras e senhores, eu vos apresento a “Estrela do Oriente”, a egípcia Oum Kalthoum!
Conheçam também a cantora e atriz egípcia Asmahan:
Particularmente, gostei mais dela nessa música aqui.
Um livro que comprei na promoção pela metade do preço levou minha mente a Marrocos por uma semana. Uma viagem no espaço e no tempo, até a década de 60, talvez. O livro “Amêndoa”, de Nedjma, é um conto erótico muito bem estruturado, que intercala lembranças da infância e adolescência de uma garota marroquina muçulmana, que vivia no interior, e da mulher que se descobre na capital.
À medida que ela contava seus causos e observações sexuais, comuns a todos nós, eu aproveitava para devorar tudo aquilo que sua vida não tinha de comum. E, então, eu dei à luz o Marrocos.